sobre as palavras e as coisas
Sei que meus amigos e amigas me acham chato quando eu fico insistindo no assunto como se fosse um professor de gramática da 7ª série. Algumas vezes pego no pé com relação a conceitos, palavras ou idéias que, colocadas despreocupadamente, acabam servindo para enganar e não para o seu justo propósito.
Peguei-me com algumas palavras hoje. Recebi uma ligação da escola de João, meia hora depois dele ter chegado lá, comunicando que deveria ir buscá-lo de volta porque ele não poderia assistir aula. Motivo: ele foi calçado com um sapato azul marinho porque o da escola (preto) estava molhado por conta da chuva da madrugada. Com efeito, perderia prova e aula e eu perderia horas de trabalho para cumprir essa determinação.
Liguei para escola e disse: vocês estão colocando meu filho para fora porque conta de um imprevisto? Não senhor, nós não estamos colocando ele para fora, isso é uma palavra muito forte. Estão sim, do contrário eu deveria ir buscá-lo no final da tarde. Ele pode ficar aí até o final da aula? Não senhor. Soltei o verbo pelo telefone e parei o meu trabalho para ir até lá.
Foi aí que novas palavras apareceram. O senhor entende que nós não podemos abrir precedentes com relação à disciplina. Mas fulana, estou pedindo que você faça uma advertência mas que deixe ele assistir as demais aulas. É norma da escola. Então, em um caso de imprevisto como este, você me recomenda que ele não venha e perca o conteúdo.
Não adiantou insistir e o João teve de vir para casa antes do horário. Veio reclamando que outras crianças já haviam ido para a escola com alguma peça do fardamento trocada, que a mãe tinha ameaçado escândalo, essas histórias que meninos e meninas sabem aumentar muito bem. Para mim, existem regras na escola e elas devem ser cumpridas, uma vez que o contrato está assinado. No entanto, está no português a raiz dessa falta de discernimento.
O que ela chama “abrir precedente”, eu chamo “ser tolerante”. O aluno tem o direito ao erro, até para aprender o correto. Se ele é condenado na primeira vez, foi tirado dele a chance de reconhecer a falha, de fazer seu auto-julgamento. Ao invés de aprender, obedece.
O que o João entendeu como “direito” dele (uma vez que outros casos aconteceram sem a punição da escola), eu chamo de “privilégio”. Reivindicar privilégio é o mesmo que aceitar a injustiça, que é o contrário do direito e da ética. Ele cometeu um erro, mesmo que ocasionado por um imprevisto, e violou uma regra; prefiro que ele seja tratado com justiça e sabedoria e não com o rigor da lei. São coisas que seres humanos fazem e é o que nos diferencia dos computadores, por isso usamos palavras e não combinações de números.
Amanhã eu vou falar com a direção da escola, bem cedo. Vou perguntar com quais palavras ela conta essa história. Na dúvida, vou pedir tudo por escrito.










Vamos ver se por escrito eles contam a “verdade” :/
27 março 2008 :: 11:51