Tomei um susto ontem no jornal de sábado. Estava no quarto arrumando algumas coisas antes de sair pro trabalho quando ouvi a notícia rápida da morte de Ernesto Sábato, escritor argentino de 99 anos, autor de Sobre Heróis e Tumbas. Corri pra sala surpreso e querendo outras informações, mas o jornal estava finalizando e fiquei com a notícia somente nos ouvidos.

Nada mais. Nem notinha no Fantástico (pelo que conta o site deles, porque não assisti ontem). Ninguém dando depoimento, analisando sua obra, considerando a importância do trabalho político feito por ele. Um Brasil midiático ignorando o falecimento do ganhador do Prêmio Cervantes de 1984 e candidato ao Nobel de Literatura de 2007.

Mesmo considerando minha história com os livros de Sábato, para mim foi surpreendente como um jornalismo televisivo dá as costas assim aos seus valores latinos, preocupando-se em dar flashes sobre a morte do Osama Bin Laden como grande acontecimento histórico, afinal o homem derrubou dois prédios e matou milhares de pessoas. Mas o que me importa isso?

Sábato morreu em sua casa, localizada na cidade de Santos Lugares, arredores de Buenos Aires. Estava praticamente cego há alguns anos e se mantinha recluso em sua residência. Sua companheira, Elvira González Fraga, em entrevista à imprensa local declarou que nos últimos dias uma bronquite complicou seu estado de saúde.

Descobri Sábato em uma revista chamada Radar. Catei os livros dele por alguns anos sem sucesso, porque os títulos publicados estavam esgotados e sem reedição. Encontrei o tradutor dele, um também escritor chamado Janer Cristaldo que, muito gentilmente, enviou-me uma tese sua sobre Sábato. Comprei pela internet dois pequenos livros de ensaios do argentino e baixei tudo que encontrei dele na internet para enganar a frustação de não conseguir o principal livro dele aqui no Brasil.

Quando um ex-cunhado viajou para a Argentina, fiz a encomenda. O “desafio” era comprar qualquer coisa que encontrasse dele, mas com especial recomendação para Sobre Heróis e Tumbas (de 1961). Claro, ele encontrou o livro em uma banca de revista custando dez pesos. Escrito em espanhol, o livro era mais um troféu para mim que propriamente uma opção, porque meu espanhol sempre foi fuleiro.

Mas a Companhia das Letras me brindou com uma edição linda e foi aí que comprei o “primeiro” Sábato. Depois veio O Túnel (de 1948). Os dois fazem uma trilogia com Abadon, o Exterminador (de 1974), mas este não tenho ainda. Quem sabe role uma sensibilidade maior após a sua morte.

Sábato não só foi reconhecido por seu ofício de escritor, mas além disso presidiu (em 1984) a Comissão Nacional sobre Desaparecimento de Pessoas (Conadep). Este grupo redigiu o relatório “Nunca mais”, obra que relata horrores da última ditadura civil-militar argentina (1976-1983). A última obra publicada por Sábato foi Espanha nos Diários da Minha Velhice, fruto de suas viagens ao país em 2002, enquanto a Argentina submergia na mais feroz crise econômica de sua história.

Mario Sábato, filho dele e autor de um documentário sobre a vida do escritor, disse que ele já não saía de casa, estava sob cuidado de enfermeiras e quase não falava, embora ocasionalmente rompesse seu silêncio para ter algum breve diálogo com a família.