Durante toda a manhã de ontem (terça, dia 28 de julho) o Teatro Antonieta Noronha, em Fortaleza/CE, tornou-se palco para o lançamento do Mapa e DVD do projeto “Conexões Cartográficas da Memória”. O material é resultado de um projeto do Coletivo Aparecidos Políticos – contemplado no I Edital de Concurso Público Programa de Residências e Intercâmbios de 2013, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de Fortaleza (Secultfor) – que teve como objetivo trazer um mapeamento dos resquícios físicos da Ditadura Militar na capital cearense.

Ao longo de cinco anos, o Coletivo realizou uma série de intervenções urbanas em Fortaleza, aplicando o “rebatismo popular” como metodologia, além de catalogar os espaços que prestam homenagens a colaboradores da Ditadura Militar no país, elencando outros espaços que simbolizaram focos de resistência e de repressão em nossa cidade para, daí, reconstruir a memória política da Capital.

O resultado deste processo, que conta com fotos, vídeos e materiais impressos, será disponibilizado a todas as escolas da Rede Pública Municipal de Ensino de Fortaleza, a fim de gerar debates acerca da temática no âmbito escolar. É ainda objetivo do Coletivo Aparecidos Políticos disponibilizar o mapeamento aos visitantes do Memorial da Resistência: Arquivo das Sombras, presente na Secultfor, onde, no período da Ditadura Militar, também foi centro de torturas. O intuito é fortalecer ainda mais a necessidade de se fazer justiça quanto à memória do período.

aparecidos-politicosNa manhã do lançamento, estiveram presentes estudantes e professores da Escola de Ensino Médio Adauto Bezerra, os integrantes do Comitê Memória, Verdade e Justiça do Ceará, Valter Pinheiro e José Machado Bezerra, o titular da Coordenadoria Especial de Políticas Públicas dos Direitos Humanos do Governo do Estado do Ceará, Dimitri Cruz, o representante da Secretaria Municipal de Cultura de Fortaleza (Secultfor), Lenildo Gomes, o vereador Evaldo Lima, o advogado Marcelo Uchôa, dentre vários interessados na temática.

Dimitri Cruz, titular da Coordenadoria Especial de Políticas Públicas dos Direitos Humanos do Governo do Estado do Ceará, parabenizou o coletivo por “ter a coragem de ser uma das pontas de lança da discussão sobre a memória e à justiça no estado do Ceará”. De acordo com Cruz, o Coletivo representa extremamente bem seu papel na área da intervenção urbana, despontando em meio a uma realidade de retrocesso político brasileiro em comparação a outros países sulamericanos. Quanto aos resquícios da Ditadura, “enquanto Estado e município a gente tá fazendo um pouco do muito que a gente devia fazer”, reforçou.

Stella Pacheco, advogada e uma das integrantes do Coletivo, também dialogou sobre o projeto relembrando intervenções produzidas pelos Aparecidos Políticos, dentre elas o próprio rebatismo da Av. Pres. Castelo Branco para Av. Leste Oeste. O vereador Evaldo Lima dialogou sobre o lançamento e reforçou que a solenidade seria também um momento de comemoração pelo que a própria palavra se propõe: memorar. Abordou o artigo publicado por Alexandre Mourão, integrante do Coletivo Aparecidos Políticos, no Jornal O Povo, destacando que “a ideia essencial [deveria ser] mudar o Mausoléu Castelo Branco para o memorial da resistência”.

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Já o advogado Marcelo Uchôa reforçou que o “trabalho do Coletivo Aparecidos Políticos é um trabalho fundamental, porque não se trata de pedir desculpas às famílias e aos torturados, mas de pedir para o Brasil a verdade”. Também com relação ao Mausoléu Castelo Branco, destacou que a luta pela mudança no nome não seria justa, seria o mínimo. “Nós não temos o direito de contar mentira pro estudante brasileiro”, finalizou.

Valter Pinheiro, integrante do Comitê Memória, Verdade e Justiça do Ceará, também enalteceu o trabalho dos Aparecidos Políticos, reforçando que estão colaborando com este momento da história. Em sua fala, fez críticas ao Relatório da Comissão Nacional da Verdade por considerá-lo incompleto em não requerer punição. “A comissão parou por aí. Nós, dos Comitês, estamos empenhados em pedir a punição para os torturadores!”, destacou.

Ao final, envoltos às palavras de ordem iniciadas pelos estudantes da Escola Adauto Bezerra, os presentes puderam homenagear a memória do desaparecido político Bergson Gurjão, além de saudar familiares, amigos e presos políticos anistiados presentes no momento. Em seguida, todos foram convidados a conhecer o Memorial da Resistência: Arquivo das Sombras, presente na Secultfor, cujo espaço foi utilizado como centro de torturas pela Polícia Federal no período da Ditadura.

[+] FONTE: Coletivo Aparecidos Políticos – acompanhe também a página do Coletivo no Facebook.