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discretos e silenciosos

Depois que se aprende a falar

12-fev-2008

Duas comunidades rivalizadas pelo tráfico na zona norte do Rio de Janeiro - de Parada de Lucas e de Vigário Geral - reconstroem os caminhos de integração e diálogo usando a internet como ferramenta e a comunicação como estratégia. Uma rádio comunitária, transmitida via internet, é o campo onde o Grupo Cultural AfroReggae joga essa bola, oferecendo instrução, falando de cultura e promovendo novos relacionamentos onde só existia o medo.

O Grupo é sediado na favela de Vigário Geral, controlada pelo Comando Vermelho, facção criminosa inimiga do Terceiro Comando Puro, de Parada de Lucas. Desde setembro passado a rádio está no ar, por intermédio de uma parceria com a BBC de Londres. Além da emissora, existe uma escola de multimídia aberta à comunidade, tanto na sede quanto no núcleo montado no Complexo do Alemão.

As aulas na AfroReggaeDigital são em um amplo estúdio que conta com equipamentos modernos. Lá, a jornalista inglesa Helen Clegg, que deixou a BBC de Londres para montar a AfroReggaeDigital, dá aulas de locução, produção e redação jornalística em rádio. Helen também responde pelo conteúdo dos programas, escolhendo os temas que vão ser abordados e pesquisados.

O projeto tem sete objetivos: 1. oferecer instrução na área de produção de rádio, jornalismo e produção de multimídia baseada na Internet; 2. oferecer aos residentes da comunidade uma alternativa de comunicação através de uma audiência global; 3. fornecer uma plataforma de diálogo para os moradores discutirem seus assuntos e construírem uma ponte entre outras comunidades, quebrando as barreiras colocadas pelos grupos armados; 4. promover uma cultura de intercâmbio de ideas e fluxo de informação; 5. divulgar a cultura local e o trabalho do AfroReggae para uma audiência global; 6. ajudar a desenvolver relações positivas entre moradores das comunidades do Rio, o AfroReggae e potenciais parceiros no mundo; e 7. incentivar relacionamentos entre a comunidade e outras partes do mundo, através de um programa internacional voluntário.

De acordo com os responsáveis pela rádio, não há interferência do tráfico na programação musical nem no conteúdo veiculados pela rádio AfroReggaeDigital. "Inicialmente iríamos montar uma rádio convencional, para atingir um número maior de ouvintes", conta um dos criadores do projeto, o inglês Damian Platt. "Mas, para evitar algum tipo de interferência externa [do tráfico], optamos pelo sistema digital, que perde em audiência, porém ganha em qualidade de som, em programação independente e no alcance, já que pode ser ouvida em todo o mundo".

Trabalho simples, que no Rio tem um forte apelo social. Fora de lá, existe uma grande resistência para se conseguir financiamento para um projeto como esse. Em capitais de menor porte, iniciativas como essa são tomadas com desconfiança, ainda que os índices de violência juvenil, a atuação do tráfico, ou a densidade populacional guardem semelhanças.

Somente projetos pessoais, cercados por uma dedicação quase missionária, se desenvolvem com esforço e são reconhecidos local e globalmente. Exemplo clássico é o trabalho da Fundação casa Grande - Memorial do Homem Kariri, pensada por Alemberg Quindins e Rosiane Limaverde. Não é por falta de referências positivas que a Comunicação não se torna uma política pública tão importante quanto a Saúde e a Educação. Ao invés disso, o que se repete são apenas projetos de aproveitamento político e difusionista: os governos querem espaço para divulgar suas ações e pagar preço baixo pela veiculação, posando de democrata e parceiro.

A experiência do AfroReggae pode ser acessada pelo endereço www.afroreggaedigital.com.
O trabalho da Fundação Casa Grande - Memorial do Homem Kariri pode ser acessada pelo endereço http://www.fundacaocasagrande.org.br.

Marcelo Inácio de Sousa