É possivel eliminar a fome das nossas vidas. Foto: PMA

No final do ano passado o Programa Mundial de Alimentos (PMA) lançou uma lista com os 10 fatos mais importantes sobre a fome no mundo. A agência da ONU aponta para a “importância desta informação ser do conhecimento de todos em 2014”: quantas pessoas no mundo têm fome? Será que este número está a decrescer? Que consequências a fome terá para as crianças? O que podemos fazer para ajudá-las?

Curiosamente, este é o ano que o livro Geografia da Fome, de Josué de Castro, completa 68 anos de história – o mais profundo estudo sobre a insegurança alimentar no Brasil, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste. Lendo os 10 fatos indicados pelo PMA, vem na minha cabeça a pergunta: falta leitura ou vergonha?

Lá em 1946, Josué iniciou uma batalha pela desconstrução do discurso de que a fome é natural e impossível de ser revertida. Mais ainda, de que a fome era um fenômeno ligado à raça. Hoje, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e a Alimentação (FAO) ainda identifica o Sul da Ásia e as regiões da África Subsaariana e a Ásia Oriental como principais pontos de subnutrição, porém, diante da informação, não se posiciona. Qual a causa disso?

Josué tomou posição: o motivo principal da fome é a concentração de terra na mão de poucas pessoas. Não à toa ocupou a presidência do Conselho da FAO (de 1952 a 1956) e recebeu duas indicações ao Prêmio Nobel da Paz. Mas atualmente falta coragem para se contar a história toda.

A PESQUISA

Para desconstruir o discurso de plástico da época, Josué de Castro viajou o Brasil, dividindo-o em cinco regiões, conforme características alimentares de cada uma: Amazônia, Nordeste açucareiro, que abrange somente o litoral, Sertão nordestino, Centro-Oeste, ao qual foi incorporado o estado de Minas Gerais e o Sul do país. Dedicou um capítulo de Geografia da Fome a cada uma destas localidades e analisou o processo de colonização das áreas, de produção de alimentos e de aparecimento de doenças nos moradores.

Logicamente, comprovou que o consumo irregular de proteínas, cálcio e ferro (em algumas regiões), e de vitaminas, iodo e cloreto de sódio (em outras), não decorre de fenômenos naturais, mas da prioridade dos governantes. Para Josué, a forma de evitar tais carências nutritivas seria a distribuição de terra.

O PMA, ao invés de encarar os fatos, mascara-os: em um deles, afirma que o número de famintos no mundo poderia ser reduzido se houvesse igualdade de recursos para as agricultoras! Sim, para o Programa, se as mulheres tivessem acesso aos mesmos recursos que os homens, na agricultura, o número de famintos no mundo poderia ter uma redução. Então é isso! A fome é decorrência de uma questão de gênero!

A própria FAO, em outubro, destacou que o desperdício ainda é uma das principais razões da fome no mundo, uma vez que um terço dos alimentos produzidos no mundo por ano é desperdiçado – o equivalente a 1,3 bilhão de toneladas e mais de US$ 750 bilhões. Na ocasião, a Organização ainda revelou que as principais razões do desperdício são, nos países industrializados, o excesso de normas e regras, devido a preocupações sanitárias ou estéticas (!!) e, nos países em desenvolvimento, as reduzidas capacidades de armazenamento e de acesso ao mercado. Aí agora vem com esse papinho?

Autor da famosa frase “metade da população brasileira não dorme porque tem fome; a outra metade não dorme porque tem medo de quem está com fome”, Josué denunciou a fome como flagelo fabricado pelos homens, contra outros homens. Acho que não precisamos voltar à ideia de que a fome é decorrência das mudanças climáticas, precisamos?

OS 10 FATOS DO PMA

1. Cerca de 842 milhões de pessoas no mundo não se alimentam em quantidade suficiente para serem saudáveis – Dados revelam que uma em cada oito pessoas vai dormir com fome todos os dias.

2. O número de pessoas que sofrem de fome crônica diminuiu 17% desde 1990-1992 – Se esta tendência se mantiver, o mundo chegará perto de atingir a meta do Objetivo de Desenvolvimento do Milênio de redução da fome mundial.

3. O Sul da Ásia é a região onde se concentra um maior número de pessoas subnutridas – As outras regiões mais afetadas são a África Subsaariana e a Ásia Oriental.

4. Um terço de todas as mortes de crianças menores de cinco anos, nos países em desenvolvimento, está relacionado à desnutrição.

5. Nos países em desenvolvimento, uma em cada quatro crianças sofre de atrofia – A alimentação inadequada prejudica os crescimentos físico e mental.

6. Os primeiros 1.000 dias da vida de uma criança, desde a gravidez até dois anos de idade, são cruciais – Durante este período, uma dieta adequada pode proteger as crianças de atrofia mental e física, que é resultante de situações de desnutrição.

7. O número de famintos no mundo poderia ser reduzido se houvesse igualdade de recursos para as agricultoras – Se as mulheres tivessem acesso aos mesmos recursos que os homens, na agricultura, o número de famintos no mundo poderia ter uma redução de até 150 milhões.

8. Fornecer todas as vitaminas e nutrientes necessários para que uma criança cresça saudável tem um custo de apenas US$ 0,25 por dia.

9. Até 2050, as alterações climáticas podem conduzir até mais 24 milhões de crianças à fome – Quase metade das crianças atingidas estaria na África Subsaariana.

10. É possível eliminar a fome das nossas vidas – O Desafio “Fome Zero”, lançado pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, procura conseguir o apoio global para a concretização desse objetivo.

 

* Fonte: Programa Mundial de Alimentos, PMA