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  • Como a psicoterapia pode te ajudar

    Como a psicoterapia pode te ajudar

    A psicoterapia é um tipo de tratamento para problemas de natureza emocional e psicológicos, por meio de conversas com profissional graduado em psicologia ou medicina (psiquiatra). Para que este tratamento aconteça é preciso uma relação de colaboração entre psicoterapeuta e paciente, ambos trabalham juntos para entender e lidar com as questões trazidas.

    A psicoterapia é um processo que envolve acessar sentimentos tanto do momento presente, quanto do passado e expectativas futuras. As mudanças no nosso jeito de ser, levam tempo para acontecer e, só acessando tanto nossas dores como nossos recursos relacionais é que podemos fazer mudanças. Nas sessões de psicoterapia, a pessoa é encorajada a falar sobre suas preocupações, problemas, sentimentos e pensamentos, enquanto o terapeuta oferece acolhimento, suporte, orientação e ajuda a realizar as mudanças necessárias para lidar com os desafios enfrentados.

    A psicoterapia pode ser usada para tratar uma ampla variedade de problemas de saúde mental, incluindo depressão, ansiedade, transtornos alimentares, vícios, transtornos de personalidade e relacionamentos difíceis. É um processo gradual e pode levar tempo para que a pessoa comece a perceber mudanças significativas em seus pensamentos, percepções, maneira de se relacionar e emoções.

    Como a psicoterapia pode te ajudar?

    A psicoterapia pode te auxiliar de várias maneiras, dependendo de suas necessidades e objetivos individuais. Abaixo apresento uma lista com de como a psicoterapia pode ser útil para você:

    Melhorar a saúde mental: A psicoterapia pode te ajudar a lidar com problemas emocionais e psicológicos, como ansiedade, depressão, estresse, trauma, luto, entre outros. Te ajuda a compreender e lidar melhor com as emoções.

    Diminuir o adoecimento físico: Quando você não cuida da saúde da mente, das emoções, seu corpo sofre, no geral o que não resolvemos na mente o corpo acaba transformando em doenças físicas. Também vale o contrário, doenças físicas tem reflexo na nossa saúde mental.

    Desenvolver habilidades interpessoais: A psicoterapia pode ajudá-lo a melhorar suas habilidades de comunicação, a entender melhor suas relações com os outros e a desenvolver relacionamentos mais saudáveis e satisfatórios com você mesmo e com os outros.

    Autoconhecimento: A psicoterapia pode auxiliá-lo a entender melhor seus pensamentos, emoções, comportamentos, motivações e como a sua história de vida influencia suas ações hoje. Isso pode ajudá-lo a se tornar mais consciente de si mesmo e a tomar decisões mais conscientes.

    Desenvolver habilidades de enfrentamento: A psicoterapia pode te ajudar a desenvolver habilidades para lidar com situações estressantes ou desafiadoras, incluindo técnicas de relaxamento, encontrar novas respostas à problemas vividos e ter uma perspectiva mais positiva para a vida.

    Melhorar o desempenho: A psicoterapia pode te ajudar a melhorar seu desempenho em várias áreas, como no trabalho, estudos, esportes ou outras atividades. Você pode desenvolver novos papéis ou fazer mudanças em papeis já desempenhados.

    Autoestima e autoconfiança: A psicoterapia pode te ajudar a desenvolver uma imagem positiva de si mesmo, melhorar sua autoconfiança e autoestima.

    Em resumo, a psicoterapia pode te ajudar a ter saúde, se aproximar do estado bem estar físico, social e mental e a alcançar seus objetivos.

    Será que preciso de psicoterapia?

    Se você sentir que pode se beneficiar da escuta sem julgamentos, se perceber que necessita de apoio durante o enfrentamento de um problema, ou se simplesmente estiver curioso, você pode fazer psicoterapia. Não há uma regra que diga se você precisa ou não fazer psicoterapia! Mas alguns sinais indicam que você pode precisar de ajuda neste momento.

    Experimente fazer terapia se você:

    Está passando por um período difícil: Se você está enfrentando um problema ou situação que está causando um estresse significativo ou afetando sua capacidade de lidar com a rotina no dia-a-dia, pode ser útil procurar ajuda de um profissional de saúde mental.

    Tem sintomas emocionais e psicológicos: Se você está experimentando sintomas de ansiedade, depressão, estresse, fobias, transtornos alimentares ou outros sintomas psicológicos, a psicoterapia pode ajudar.

    Tem problemas de relacionamento: Se você está tendo problemas em seus relacionamentos com amigos, familiares ou parceiros românticos, pode ser útil procurar ajuda para melhorar suas habilidades de comunicação e resolução de conflitos.

    Está lutando para lidar com um trauma: Se você passou por um evento traumático ou está lutando para lidar com uma experiência difícil do passado, pode ser útil procurar ajuda profissional para lidar com essas questões.

    Quer trabalhar no autodesenvolvimento: Se você está procurando crescer pessoalmente e desenvolver um maior autoconhecimento, a psicoterapia pode ser uma ferramenta útil para ajudá-lo a alcançar esses objetivos.

    Lembre-se de que não há problema em buscar ajuda e cuidado para sua saúde mental, trate da mesma forma que é feito com a saúde física. Já existe bastante informação científica que mostram também a importância deste cuidado.

    Psicoterapia com psicodrama

    Na abordagem psicodramática cada pessoa é percebida a partir das suas relações com o seu mundo interno e externo. Busca desenvolver a espontaneidade e criatividade, o reconhecimento de si próprio, do outro e da sociedade em prol de relações mais saudáveis e produtivas. Parte de um trabalho mais interativo e vivencial, utilizando-se do corpo, da ação e não só da fala (saiba mais).

    Como funciona as seções?

    Os encontros terapêuticos são semanais e tem duração de 50 minutos cada, com dia e horário acordados com a psicóloga. Ao entrar em contato para agendar sua sessão você receberá o acordo terapêutico, um documento que contém regras e orientações gerais do processo. Neste momento, uma sessão inicial é agendada para que possamos nos conhecer, tirar dúvidas e decidir pela continuidade ou não do processo terapêutico.

    Não há número de sessões pré-determinado para o tratamento, independente de diagnósticos pré-existentes ou não. A duração do tratamento, a alta do processo e a desistência são determinadas por você, que é inteiramente livre para iniciar e terminar seu processo terapêutico a qualquer momento. Os seus limites e ritmo são respeitados em primeiro lugar e nenhuma mudança é forçada. O trabalho é feito a partir do diálogo, do acolhimento afetuoso e da compreensão empática.

    As sessões de psicoterapia são, em geral, um processo colaborativo entre paciente e o terapeuta, em que ambos trabalham juntos para entender e lidar com as questões trazidas. Em suma, algumas coisas que você pode esperar durante as nossas sessões: Inicialmente são feitas algumas perguntas para compreender o que está procurando e avaliar a necessidade de tratamento. Também responderei a quaisquer perguntas que você possa ter. Uma das primeiras avaliações que faço é mapear a sua rede de relações. Este mapeamento também costuma ajudar a compreender e localizar conflitos, como estes se relacionam os sintomas apresentados e como você responde a eles.

    O tratamento na saúde mental é totalmente personalizado porque lida com a subjetividade, por isto iremos definir juntos um plano terapêutico. Depois deste primeiro momento inicial, caberá ao paciente escolher o conteúdo que será aprofundado na sessão. Não deixe de ir quando isto não estiver claro, na sessão você poderá receber ajuda para fazer esta escolha. Esta estratégia te ajuda a se colocar como protagonista do seu processo de psicoterapia.

    Outro ponto importante, no espaço da psicoterapia você tem a oportunidade de experimentar ser de forma diferente do que você é no dia a dia. É um espaço protegido onde você pode experimentar treinar conversas difíceis por exemplo. No geral aprendemos formas de nos relacionar socialmente ou somos tomados de sentimentos em algumas situações que nos atrapalha nas relações. Na terapia é possível tanto tomar consciência do como alguns comportamentos podem estar nos atrapalhando no dia a dia, quanto experimentar jeitos novos e mais adequados para lidar com as situações difíceis.

    É importante lembrar que esse texto é um resumo geral e que a psicoterapia é um processo personalizado e que vai variar de pessoa para pessoa, dependendo das necessidades individuais.

  • Ansiedade e espontaneidade: como se relacionam?

    Ansiedade e espontaneidade: como se relacionam?

    A ansiedade é uma resposta emocional caracterizada por uma sensação vaga, difusa e desagradável de apreensão, frequentemente acompanhada por sintomas físicos como aumento da frequência cardíaca, alterações na respiração, tensão muscular, sudorese, tremores e inquietação. Trata-se de um componente natural do sistema de defesa do organismo, funcionando como um sinal de alerta diante de uma ameaça percebida (real ou antecipada), mobilizando o indivíduo para a ação, seja por meio da evitação, da fuga ou do enfrentamento da situação.

    Sentir ansiedade é normal e necessário. Ela tem a função adaptativa e de proteção.

    No entanto, a ansiedade pode se tornar um sofrimento quando perde sua função adaptativa. Algumas pessoas têm maior predisposição biológica à ansiedade desregulada. Além disso, experiências de vida (como traumas, violências, perdas ou relações marcadas por insegurança) podem deixar o corpo e a mente em alerta constante, sempre antecipando que algo ruim pode acontecer.

    Afinal, minha ansiedade é normal?

    Nem toda ansiedade é um problema. Em momentos de mudança, como uma nova etapa profissional, o fim de um relacionamento ou a chegada de um projeto importante é esperado que a ansiedade apareça. Ela nos ajuda a estar mais atentos e preparados.

    Mas, quando ela começa a limitar a vida como evitar lugares, pessoas ou situações por medo de errar, ser julgado ou fracassar é hora de buscar ajuda. A ansiedade desadaptada costuma vir acompanhada de uma autocrítica severa, uma visão distorcida de si mesmo e do mundo. Nessas situações, o sofrimento é real e merece acolhimento.

    Ansiedade e espontaneidade: o que o psicodrama nos ensina

    No psicodrama, a ansiedade é compreendida como um efeito da perda da espontaneidade. Ou seja, não é a ansiedade que impede a espontaneidade, mas sim a diminuição significativa da nossa capacidade espontânea que faz com que a ansiedade apareça.

    Espontaneidade, nesse contexto, não significa impulsividade, mas sim a capacidade de agir de forma criativa, adequada e autêntica diante das situações da vida. É uma função essencial da saúde psíquica e se expressa quando conseguimos estar presentes, coerentes entre o que sentimos, pensamos e fazemos.

    A palavra “espontaneidade” tem origem no latim sponte, que significa “livre vontade”. Ela é vivida como um estado de liberdade, de influências externas e também das internas que não conseguimos controlar.

    Segundo J. L. Moreno, criador do psicodrama, espontaneidade é “a resposta nova para uma situação antiga ou uma resposta adequada para uma situação nova”. Em psicoterapia, buscamos entender por que essa função inata pode estar bloqueada e criar caminhos para que ela possa se manifestar novamente.

    Ansiedade e espontaneidade são forças que nos colocam em movimento

    Ansiedade e espontaneidade são forças que nos colocam em movimento, mas por caminhos diferentes. A ansiedade surge da preocupação com o que pode acontecer, ela pode nos preparar para agir, mas também pode nos imobilizar quando se torna excessiva. Já a espontaneidade é a capacidade de agir de forma presente e ajustada à realidade, com criatividade e equilíbrio, mesmo diante da incerteza.

    Em situações cotidianas, como um jantar especial ou uma entrevista de emprego, é natural que a ansiedade apareça: queremos causar uma boa impressão, fazer o melhor possível. Quando conseguimos acessar a espontaneidade, essa preocupação não nos bloqueia ela se transforma em ação cuidadosa. Escolhemos a roupa com atenção, nos preparamos com carinho para o momento, nos organizamos para chegar no horário. A espontaneidade permite que, mesmo com ansiedade, estejamos inteiros na experiência.

    Reconhecer que errar faz parte do caminho, que nem tudo sairá como planejamos e que os relacionamentos podem, sim, terminar, é parte da vida adulta. O importante é que a preocupação não nos impeça de estar em contato conosco e com o outro. Que a tensão não nos roube o prazer. Que a expectativa não apague a confiança. Porque mesmo quando algo dá errado, ainda assim é possível encontrar sentido, aprender e continuar.

  • Psicoterapia Online: o que é, vantagens, mitos e casos não indicados

    Psicoterapia Online: o que é, vantagens, mitos e casos não indicados

    A partir de 2020 vivenciamos uma aceleração de mudanças na nossa rotina e cultura a partir das soluções que as tecnologias e internet ofereceram. Uma delas foi o teleatendimento, também chamado de atendimento online, teleterapia, terapia eletrônica, e-terapia.

    Neste modelo o profissional utiliza a internet para realizar os atendimentos e as sessões com pacientes, pode utilizar plataformas como email, chamadas de vídeo, mensagens de texto, bate-papo online, mensagens ou telefonemas. O mais comum são os atendimentos realizados em tempo real por vídeo.

    Na psicologia já existiam profissionais que atendiam online antes de 2020, quando a pandemia fez com que muitos profissionais ofertassem este tipo de atendimento. Desde 2000 o Conselho Federal de Psicologia (CFP) já vinha realizando estudos no país sobre o atendimento online realizado por psicólogos o que permitiu que quando a oferta do serviço fosse ampliada existisse bastante embasamento teórico.

    imagem lateral de mulher com cabelos encaracolados, sentada diante de um computador notebook no qual digita

    Vantagens da psicoterapia online

    • Privacidade – há pessoas quê não querem falar abertamente que estão em psicoterapia ainda por uma questão de estigma em relação à saúde mental ou mesmo questão de discrição e o online facilita manter o anonimato;
    • Conforto – fazer sessões de onde você estiver, inclusive da sua casa.
    • Menos gasto com deslocamento até o consultório.
    • Ganha tempo pois evita deslocamentos desnecessários;
    • Poder viajar ou mudar de cidade, até de país sem se preocupar em ter que encontrar outro profissional para atender;
    • Acesso. O profissional não precisa ser da sua cidade para atendê-lo;
    • Atendimento pela internet é tão eficiente quanto o presencial, segundo pesquisas recentes;
    • Segurança neste período de pandemia Covid 19 e outros vírus que de tempos em tempos circulam por aí.

    Mitos da psicoterapia Online

    Não funciona – Um estudo realizado pela Universidade de Minnesota (EUA) comprovou que a psicoterapia online apresenta o mesmo resultado da presencial, além de beneficiar quem não tem acesso ao serviço presencial por questões como localidade, limitação física ou algum tipo de fobia social. Não tenha receio e teste uma sessão para perceber os resultados.

    Não é seguro – Por ser um modelo aprovado pelo Conselho Federal de Psicologia, os profissionais devem respeitar o código de ética e a lei. O que garante sigilo, inclusive nas sessões virtuais. Todo psicólogo ao se apresentar publicamente precisa divulgar o seu número de registro profissional, pelo qual é fiscalizado e assume as exigências para exercício da profissão. Fique atento a este detalhe.

    O vínculo é mais difícil – É possível desenvolver um bom vínculo mesmo no ambiente mediado pela tecnologia. A relação entre o psicólogo e o paciente acontece da mesma forma que no ambiente presencial. Caso você não se sinta a vontade este é um bom assunto para ser conversado na terapia. O não se identificar com o psicólogo ou com a abordagem pode acontecer mesmo no presencial, busque outros profissionais, tenho certeza que você achará alguém em que a relação de ajuda seja possível.

    Casos não indicados

    O Conselho Federal de Psicologia estabeleceu como inadequado o atendimento psicológico online de pessoas e grupos em situação de urgência e emergência, situação de emergência e desastres, bem como em situação de violação de direitos ou de violência.

    Como ter uma melhor experiencia no online

    O paciente precisa ficar atento a:

    • Estar em um ambiente que não tenha interferências externas (excesso de ruído, animais de estimação, circulação de outras pessoas, etc.).
    • Cuidar para que as pessoas não interrompam;
    • A responsabilidade do sigilo profissional é compartilhada entre paciente e psicólogo;
    • Ter um bom antivírus e internet de qualidade;
    • Fazer utilização de fones de ouvido.
    • Ligue seu computador com antecedência, alguns equipamentos precisam de um tempo para entrar em pleno funcionamento.
    • Escolher um espaço onde possa apoiar seu computador ou celular e ficar com seu corpo confortável. Fique de preferência sentado uma vez que seu corpo precisa estar em prontidão para este momento.
    • Se prepare e se organize para o seu atendimento, este é o seu momento de autocuidado. Algumas pessoas gostam de fazer anotações e providenciam papel e caneta, outras levam água ou café, o importante é que você já nesta preparação cuide do seu bem estar na medida do possível.
  • Agamben: onde o rosto desaparece, os mortos também são banidos da vida

    Agamben: onde o rosto desaparece, os mortos também são banidos da vida

    Em duas ocasiões na última semana a referência a um “caminho sem volta” na adoção de ferramentas online e dispositivos digitais para a aprendizagem, de maneira absolutamente genérica, apareceram em conversas que participei. Entre uma conversa e outra, notícias sobre o alto número de crianças e adolescentes que abandonaram os estudos neste período de pandemia de Covid 19 cutucaram meus ouvidos. Olhei pra isso primeiro com o sentimento da educação; porém outro pensamento me passou pela cabeça quando li um artigo de Giorgio Agamben, publicado no dia 30.abr.21 pelo jornal suíço Neue Zürcher Zeitung (NZZ) e traduzido pelo Instituto Humanitas Unisinos (links no final do texto).

    Agamben dá um giro em torno de uma ideia a respeito de duas coisas — aparentemente sem relação entre si — que estão destinadas, segundo ele, a serem totalmente removidas: o rosto e a morte. Ele argumenta que todos os seres vivos “se mostram e se comunicam uns com os outros”, entretanto apenas o ser humano faz do rosto o lugar de seu “reconhecimento” e de sua “verdade”. O humano é o animal que “reconhece seu rosto no espelho e se espelha e se reconhece no rosto do outro”.

    Tem no texto do Agamben um cheirinho de paradoxo. Até porque ele nem faz menção à educação, às escolas, às crianças e adolescentes. Mas essa premissa inquestionável de que a comunicação (e a educação) acontecerá cada vez mais pelo uso das plataformas e dispositivos digitais só me remete, repetidamente, à percepção da solidão profunda. Ambas são esvaziadas de seus sentidos e não há comunhão nem crescimento. Enfim, eis o artigo.

    Parece que, na nova ordem planetária que está se formando, duas coisas, aparentemente sem relação entre si, estão destinadas a ser totalmente removidas: o rosto e a morte. Tentaremos investigar se elas não seriam, ao contrário, de alguma forma conectadas e qual é o sentido de sua remoção.

    Já era conhecido dos antigos que a visão do próprio rosto e do rosto dos outros é uma experiência decisiva para o ser humano: “O que se chama ‘rosto’ — escreve Cícero — não pode existir em nenhum animal exceto no homem” e os gregos definiam o escravo, que não é senhor de si mesmo, aproposon, literalmente “sem rosto”. Claro que todos os seres vivos se mostram e se comunicam uns com os outros, mas só o homem faz do rosto o lugar de seu reconhecimento e de sua verdade, o homem é o animal que reconhece seu rosto no espelho e se espelha e se reconhece no rosto do outro. O rosto é, neste sentido, ao mesmo tempo a similitas, a semelhança e a simultas, o estar junto dos homens. Um homem sem rosto está necessariamente sozinho.

    É por isso que o rosto é o lugar da política. Se os homens tivessem que comunicar sempre e apenas informação, sempre isso ou aquilo, nunca haveria política propriamente dita, mas apenas troca de mensagens. Mas, visto que os homens precisam em primeiro lugar comunicar a sua abertura, seu reconhecer-se mútuo em um rosto, o rosto é a própria condição da política, aquilo em que se assenta tudo o que os homens falam e trocam.

    O rosto é, neste sentido, a verdadeira cidade dos homens, o elemento político por excelência. É olhando para o rosto que os homens se reconhecem e se apaixonam, percebem semelhança e diversidade, distância e proximidade. Se não há uma política animal, é porque os animais, que já estão sempre à vista, não fazem de sua exposição um problema, simplesmente vivem nela sem se importar com ela. Por isso eles não se interessam pelos espelhos, pela imagem como imagem. O homem, por outro lado, quer se reconhecer e ser reconhecido, quer se apropriar de sua própria imagem, busca nela sua própria verdade. Ele transforma, assim, o ambiente animal em um mundo, no campo de uma incessante dialética política.

    Um país que decide renunciar ao seu próprio rosto, cobrir os rostos dos seus cidadãos com máscaras em toda parte é, portanto, um país que cancelou de si todas as dimensões políticas. Nesse espaço vazio, submetido a cada instante a um controle sem limites, agora se movem indivíduos isolados uns dos outros, que perderam o fundamento imediato e sensível de sua comunidade e podem apenas trocar entre si mensagens dirigidas a um nome sem rosto. E sendo o homem um animal político, o desaparecimento da política significa também a remoção da vida: uma criança que, ao nascer, não vê mais o rosto da mãe, corre o risco de não poder conceber sentimentos humanos.

    Não menos importante que a relação com o rosto, é para os homens a relação com os mortos. O homem, o animal que se reconhece no próprio rosto, é também o único animal que celebra o culto dos mortos. Não é surpreendente, então, que também os mortos tenham um rosto e que o cancelamento do rosto ande em paralelo com a remoção da morte.

    Em Roma, o morto participa do mundo dos vivos por meio de sua imago, imagem moldada e pintada em cera que cada família conservava no átrio de sua casa. O homem livre é, em outras palavras, definido tanto por sua participação na vida política da cidade quanto por seu ius imaginum, o direito inalienável de guardar o rosto de seus ancestrais e exibi-lo publicamente nas celebrações da comunidade. “Após o sepultamento e os ritos fúnebres – escreve Políbio – a imago do morto era colocada no ponto mais visível da casa em um relicário de madeira e essa imagem é um rosto de cera feito em total semelhança tanto por forma quanto por cor”. Essas imagens não eram apenas objeto de uma memória privada, mas eram o sinal tangível da aliança e da solidariedade entre os vivos e os mortos, entre passado e presente que era parte integrante da vida da cidade.

    Por isso desempenhavam um papel tão importante na vida pública, tanto que foi possível afirmar que o direito às imagens dos mortos é o laboratório em que se funda o direito dos vivos. Tanto que quem havia se manchado com um grave crime público perdia o direito à imagem. E a lenda reza que quando Rômulo fundou Roma, fez cavar um poço – chamado mundus, “mundo” – em que ele mesmo e cada um de seus companheiros lançam um punhado da terra de onde provêm. Esse poço era aberto três vezes por ano e dizia-se que naqueles dias os Mani, os mortos entravam na cidade e participavam da existência dos vivos. O mundo nada mais é que o limiar através do qual os vivos e os mortos, o passado e o presente se comunicam.

    Entende-se então por que um mundo sem rostos só possa ser um mundo sem mortos. Se os vivos perdem seu rosto, os mortos tornam-se apenas números, que, na medida em que foram reduzidos à sua pura vida biológica, devem morrer sozinhos e sem funerais.

    E se o rosto é o lugar onde, antes de qualquer discurso, comunicamos com os nossos semelhantes, então até mesmo os vivos, privados de sua relação com o rosto, por mais que tentem se comunicar com dispositivos digitais, estão irreparavelmente sós.

    O projeto planetário que os governos tentam impor é, portanto, radicalmente impolítico. Ele se propõe, aliás, a eliminar da existência humana todo elemento genuinamente político, para substituí-lo por uma governamentalidade baseada apenas em um controle algorítmico. Cancelamento do rosto, afastamento dos mortos e distanciamento social são os dispositivos essenciais dessa governamentalidade, que, segundo as declarações concordantes dos poderosos, deverão ser mantidos mesmo quando o terror sanitário se tiver amenizado. Mas uma sociedade sem rosto, sem passado e sem contato físico é uma sociedade de espectros, como tal condenada a uma mais ou menos rápida ruína.

    GIORGIO AGAMBEN é um filósofo italiano, nascido em 1942.
    [+] Link da publicação original:
    https://www.nzz.ch/feuilleton/giorgio-agamben-das-verschwinden-von-gesicht-tod-und-politik-ld.1614127
    [+] Link da publicação na IHU Unisinos:
    http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/608961-o-rosto-e-a-morte-artigo-de-giorgio-agamben
  • Povos do Cerrado debatem direitos territoriais

    Povos do Cerrado debatem direitos territoriais

    Mais de 880 áreas em conflitos agrários no Brasil foram registradas somente em 2017. Só no Maranhão estão 180 e outras 97 estão na Bahia. Os dados são do documento Conflitos no Campo Brasil 2017, da Comissão Pastoral da Terra (CEDOC Dom Tomás Balduino – CPT). Dos 71 assassinatos no campo (o maior número registrado desde 2003), onze eram quilombolas – nove somente na BA – e seis eram indígenas. Além disso, 25 indígenas sofreram tentativas de assassinato – 21 somente no MA – assim como 36 quilombolas – 31 no MA – receberam ameaças de morte, e mais seis quebradeiras de coco (todas no MA), quatro camponeses de fundo e fecho de pasto, três extrativistas e um geraizeiro. A motivação, na maioria dos casos, é a disputa por terras e territórios.

    Bahia e Maranhão têm parte de seus territórios entre as áreas prioritárias do Cerrado, segundo maior bioma da América do Sul e hoje, proporcionalmente, o mais desmatado do Brasil. De acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente (MMA), metade da vegetação nativa do Cerrado não existe mais. A área com a maior incidência é o MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), região apontada como a “última fronteira agrícola” do país. O Cerrado sofre com o avanço indiscriminado de commodities do agronegócio, em especial o MATOPIBA.

    Caravana Internacional Matopiba
    Área preparada para a monocultura

    “Ocorre que nessas áreas temos dezenas de Terras Indígenas, centenas de assentamentos da reforma agrária, Territórios Quilombolas que são afetados diretamente pela constituição dessa nova fronteira para a agricultura de larga escala no Brasil”, explica a pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) Mônica Nogueira, mestre em Desenvolvimento Sustentável e doutora em Antropologia.

    Com o intuito de debater e dialogar sobre os direitos territoriais – incluindo disputas e conflitos por terras (principalmente no campo) – e de conhecer novas formas de garantia de territórios, a Rede Cerrado promove hoje e amanhã (6 e 7.nov.18), em Brasília/DF, a 1a Oficina de Territórios. A atividade reunirá representantes de povos e comunidades tradicionais (PCTs) que vivem no Cerrado e de organizações da sociedade civil. Também estarão presentes a presidenta do Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT), Cláudia Regina Sala de Pinho; o secretário executivo da 6a Câmara do Ministério Público Federal, Marco Paulo Fróes Schettino; e o secretário adjunto de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Ministério de Direitos Humanos, Marcelo Silva Oliveira Gonçalves.

    Para Maria do Socorro Teixeira Lima, quebradeira de coco e coordenadora geral da Rede Cerrado, será um momento para a reflexão e o debate aprofundado das diferentes realidades presentes no Cerrado e no Brasil. “Neste sentido, vamos, a partir das discussões e dos trabalhos realizados, orientar nossos próximos passos, principalmente no que diz respeito à garantia dos territórios tradicionais”.

    REDE CERRADO

    Composta por mais de 50 entidades da sociedade civil associadas, a Rede Cerrado trabalha para a promoção da sustentabilidade, em defesa da conservação do Cerrado e dos seus povos. Indiretamente, a Rede Cerrado congrega mais de 300 organizações que se identificam com a causa socioambiental do bioma. São representações indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco babaçu, vazanteiros, fundo e fecho de pasto, pescadores artesanais, geraizeiros, extrativistas, veredeiros, caatingueros, apanhadores de flores Sempre Viva e agricultores familiares. A Rede Cerrado também atua estrategicamente em diversos espaços públicos socioambientais para propor, monitorar e avaliar projetos, programas e políticas públicas que dizem respeito ao Cerrado e aos seus povos.

    SERVIÇO

    1a Oficina de Territórios da Rede Cerrado
    Quando: 6 e 7 de novembro, de 8h30 às 18 horas.
    Onde: Casa de Retiros Assunção – Avenida L2 Norte 611 E – Setor de Grandes Áreas Norte (SGAN)

    FONTE: ISPN / Rede Cerrado | FOTO: ONG Fase / Rosilene Miliotti - álbum: Caravana Internacional Matopiba
  • Jornalismo nunca foi tão necessário

    Jornalismo nunca foi tão necessário

    Em tempos em que notícias falsas (as fake news) são compartilhadas diariamente nas redes sociais, o jornalismo tornou-se cada dia mais necessário. A avaliação é do conselheiro de Comunicação e Informação da Unesco, Guilherme Canela.

    Ele disse que:

    “Ironicamente, o modelo do jornalismo nunca esteve tão em xeque, do ponto de vista de modelo econômico, mas nunca foi tão necessário. Ou seja, o fato de haver uma profusão de elementos informativos ou opinativos nas redes sociais, faz com que os editores de informação, os que investigam o que é fato e o que é mentira, sejam absolutamente centrais para os regimes democráticos, sobretudo em períodos pré-eleitorais e eleitorais.”

    Em entrevista à Agência Brasil, em Montevidéu, Canela fala sobre o acesso à informação pública, liberdade de imprensa e assassinato de jornalistas.

    Acesso à informação pública

    A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, estabelece o acesso à informação pública não apenas como o direito de transmitir ou receber informações, mas também o de buscar.

    “O cidadão tem o direito de perguntar ao Estado o que ele quiser. E o Estado não tem o direito de perguntar ao cidadão porque ele quer saber. Isso é a essência do direito humano ao acesso à informação.”

    Canela destacou que uma das novidades da Agenda 2030 é a meta dos países oferecerem acesso à informação pública. Para a Unesco, há um reconhecimento crescente da importância desse direito. Em 2011, 90 países tinham leis que tratavam da liberdade de acesso à informação, em 2016, eram 112 países.

    Na entrevista, o conselheiro defende ainda que a informação pública não deve ser usada apenas para o combate à corrupção. “O acesso à informação pública e à liberdade de expressão é fundamental para garantir mais democracia, desenvolvimento e direitos humanos. É preciso desconstruir a ideia de que o acesso à informação pública só serve para combater a corrupção”, afirma Canela.

    Ele defende que a transparência e a divulgação de dados públicos podem, literalmente, salvar vidas. Canela cita como exemplo denúncia, resultante de uma consulta a dados públicos, apontou que a Força Aérea Brasileira (FAB) dava prioridade ao transporte de autoridades em vez de transportar órgãos para transplante. Após a divulgação da denúncia, uma lei determinou que a FAB deveria manter disponível, sempre, pelo menos um avião para o transporte de órgãos, tecidos e partes do corpo humano, o que ajudou no aumento do transporte de órgãos no país, segundo Canela.

    Fake news e liberdade de imprensa

    O conselheiro rechaça que as fake news devem ser traduzidas como notícias falsas, quando são “mentiras puras e duras”.

    “Se é notícia, não é falsa”, diz. Canela lembra que os conteúdos falsos sempre estiveram presentes nos processos eleitorais. Porém, agora, com as redes sociais circulam “literalmente na velocidade da luz”.

    “Tenho a impressão que na maioria dos casos a circulação da corrente desinformativa não tem má-fé, exceto no ponto inicial, de quem construiu um conteúdo mentiroso. Depois, as pessoas vão passando aquilo com uma crença de que é verdade. É uma circulação que tem a ver com a lógica dos algoritmos, com a lógica das bolhas informativas, em que as pessoas resolvem entrar e ficam presas”.

    Em recente informe, intitulado Tendências Mundiais em Liberdade de Expressão e Desenvolvimento dos Meios (publicação disponível para baixar), a Unesco afirma que os algoritmos utilizados para navegação em uma maior quantidade de informações na internet contribuem para as chamadas “câmaras de ressonância” e “bolhas de filtro”, quando os conteúdos são direcionados para reafirma as opiniões dos indivíduos, em vez de propiciar diálogos.

    VEJA ESPECIAL DA AGÊNCIA BRASIL SOBRE FAKE NEWS

    Dentro desse cenário de compartilhamento demasiado de falsos conteúdos, a liberdade de imprensa se torna essencial para garantir um processo eleitoral livre e justo. “O processo eleitoral será tão mais justo quanto mais eficiente seja o sistema de freios e contrapesos que faz a checagem do que está acontecendo e que também informe a sociedade da maneira mais ampla e plural possível. Por isso alguns teóricos dizem que dois elementos centrais da balança democrática são justamente um judiciário livre e uma imprensa livre”.

    O informe da Unesco aponta ainda que, apesar do aumento da disponibilidade de conteúdos nos meios de comunicação, decorrente do incremento dos conteúdos compartilhados e gerados nas redes sociais, há, por outro lado, uma diminuição na circulação de jornais e conteúdos jornalísticos em praticamente todo o mundo. Além disso, um estudo recente mostra que a liberdade de imprensa está em queda em 131 países.

    Assassinatos de jornalistas

    Em relação às ameaças à liberdade de imprensa, o informe traz dados atualizados sobre violência contra jornalistas. Entre 2012 e 2016, 530 profissionais foram assassinados no mundo. O maior número de assassinatos ocorreu nos Estados Árabes, com 191 mortos. Em segundo lugar, aparece a América Latina com 125.

    Na avaliação de Canela, assassinatos de jornalistas, comunicados e fotógrafos “é a última fronteira da censura”. Ele destaca que de cada dez assassinatos, apenas um tem resultado na Justiça, o que passa “a mensagem muito clara de que o custo de matar um jornalista é muito baixo para os agressores”.

    “Cada jornalista assassinado é um observador a menos da realidade social, de conflitos de terra, de meio ambiente, de mineração ilegal, do narcotráfico, de políticos corruptos, policiais corruptos, etc. E esse cenário de graves violações da liberdade de imprensa tem um outro efeito perverso, que é a autocensura. Em muitos lugares, os jornalistas, de maneira absolutamente compreensível, se autocensuram, dados os níveis de violência.”

    Em seu informe, a Unesco cita o aumento da crítica hostil aos jornalistas e meios de comunicação por parte de lideranças políticas, elevando a intolerância contra os profissionais da imprensa.

    “Nos últimos anos, de maneira muito mais intensa, políticos latino-americanos, em vários países da região, intensificaram um discurso simbólico contra a imprensa, com terminologias como ‘imprensa corrupta’, ‘jornalistas vendidos’, ‘imprensa que gera fake news‘. Mas não compete a um líder político generalizar isso, sem provas. Esse discurso contra a imprensa contribui para a violência. Os líderes tinham que ter muito claro que é papel deles, a todo momento, sublinhar de maneira inequívoca a importância da liberdade de imprensa para as democracias. Isso não quer dizer que os políticos não possam discordar do que os jornalistas produzem. Mas essa discordância não pode estimular a violência, desacreditar a liberdade de imprensa”, afirma Canela.

    Canela aponta ainda concentração dos meios de comunicação, por empresas privadas ou pelo Estado. O conselheiro defende a coexistência de meios de comunicação privados, comunitários e públicos para uma imprensa livre e robusta.

    .. texto publicado na Agência Brasil, 
    .. por Marieta Cazarré (repórter) 
    .. em 01/10/18